Super-heróis: os mitos modernos - REFRICULTURAL : REFRICULTURAL
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Super-heróis: os mitos modernos
6 de agosto de 2009 por Andreia D'Oliveira
Assuntos: Quadrinhos

Superman – Mitos Modernos 02 by ~andreiadoliveira on deviantART

Sempre escutamos que mitos são histórias inventadas para explicar fenômenos que não entendemos. Existem milhares de fatos que foram explicados por essas narrativas, mas peguemos o mais grandioso deles: a criação do mundo.
Muito antes de dizerem que esse pequeno planeta azul teria surgido de uma grande explosão chamada “Big Bang” (e que era pequeno e azul), existiam outras formas de entender o seu surgimento de tudo. Por exemplo, para os judeus (assim como para os cristãos) Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. No caso dos gregos antigos, a criação do mundo vinha do deus primordial Caos, que deu origem a outros cinco deuses (Gaia, Tártaro, Eros, Érebo e Nix ). Esses cinco deuses se incumbiram da tarefa de criar tudo que existe.
Hoje, independente da religião que professemos, muitos de nós não acreditam nessas histórias. A ciência deu luz a maioria de nossas inquietações. Então por que dizermos que os super-heróis são mitos modernos? O que eles tem a nos explicar?
Abaixo segue duas citações retiradas do livro “O poder do mito” de Joseph Campbell:

  • “Mitos são histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significação, através dos tempos”.
  • “Contamos histórias para tentar entrar em acordo com o mundo, para harmonizar nossas vidas com a realidade”.

Diante dessas afirmações, em um primeiro momento podemos realmente dizer que os mitos são apenas uma forma de explicar o mundo que nos rodeia, mas percebemos que o papel deles (como de qualquer história) é muito maior: é tornar esse mundo parte de nós.
Os super-heróis nos tornam parte desse todo. Muito mais do que imaginamos…
Há pouco mais de um ano, os jornais noticiaram que uma mãe entrou numa espécie de lagoa, sem saber nadar, para salvar o filho que estava se afogando. Se esquecermos por um instante do fator biológico de preservação da espécie, essa mulher ultrapassou seus limites para salvar um bem maior que a própria vida dela. Ela foi ovacionada como uma heroína. Muitos foram os casos de pessoas que extrapolaram seus limites objetivando o bem do outro, normalmente aos que fazem isso denominamos heróis.
O que diferenciaria essa mulher do Superman? Claro, os super-poderes! Seria muito mais fácil se ela tivesse a habilidade de voar do homem de aço. Ela apenas voaria por cima do pequeno lago e resgataria a criança num ato quase cinematográfico. Seria dramático, com certeza, mas ela continuaria sendo considerada uma heroína, mesmo não tendo lá muito trabalho no resgate? Não seria mais ou menos como puxar a mão do filho quando, ao atravessar a rua, ele se adianta sem perceber um carro que está se aproximando?
Por conta desses questionamentos alguns consideram a expressão “super-herói” um grande paradoxo. Ser “herói” e “super” ao mesmo tempo não teria nenhum nexo. Uma saída é irmos para o contraponto pensando nos “super-vilões” que, normalmente tem super-poderes e os utiliza para o que conceituamos chamar de Mal. Então tanto os heróis quanto os super-heróis estão ligados pela sua essência, que é fazer o bem.

Superman e o ser herói.
Superman foi o primeiro grande super-herói de outros que tentaram imita-lo, com ou sem sucesso. Foi criado por dois estudantes Jerry Siegel e Joe Shuster e sua primeira aparição foi em Junho de 1938 na revista Action Comics.
A origem clássica do Superman narra que para salvar a vida de seu filho da destruição total do planeta Kripton, o cientista Jor-EL lança-o dentro de uma pequena aeronave que cai na Terra, mais especificamente em uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos chamada Smallville. A criança é adotada por John e Marta Kent e recebe o nome de Clark Kent. Com o passar dos anos, Clark descobre sua origem e percebe que é diferente dos outros habitantes do nosso planeta.
Mais tarde vai trabalhar em Metrópolis, como o jornalista no Planeta Diário. Lá conhece Lois Lane, Jimi Olsem e Perry Whait.

Por que ele faz o que ele faz?
Mark Waid, roterista de Kingdom Come (Reino do Amanhã), é considerado o maior especialista em Superman da atualidade. Em um texto feito para o livro Super-Heróis e a Filosofia conta que quando foi convidado a escrever O Legado das Estrelas (nova história sobre a origem do homem de aço) se deparou com a seguinte pergunta: “Por que ele faz o que ele faz?” Imagine-se o ser mais poderoso de todo mundo sendo, praticamente, invulnerável. Por que não se tornar literalmente o dono dele? A resposta dada por Waid é bem exemplificada na história Para o homem que tem tudo criada por Allan Moore – Kal-El precisa ser aceito, assim como todos nós.
Nessa história Moore mostra o dia do aniversário de Kal. O que dar para um homem que pode ter qualquer coisa? Ao chegarem na Fortaleza da Solidão para dar-lhe os parabéns, Mulher-Maravilha, Batman e Robin descobrem Superman em um transe causado por uma espécie de planta alienígena, presenteada por um de seus inimigos. O que mais nos perturba é a ilusão criada pela planta-parasita: ela reproduz o maior desejo na mente daquele de quem se apodera. Podemos pensar em sonhos de glória para o campeão de Metrópolis, mas esse sonha com uma vida simples, em seu planeta natal, com mulher e filhos.
Como já disse, os super-heróis nos tornam parte do mundo muito mais do que imaginamos. São nossas personificações melhoradas que anseiam pelas mesmas coisas, seja entender que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades” como Peter Parker ou ser o homem mais poderoso do mundo e apenas querer ser aceito. Clark Kent, diferente do que muitos pensam, é o disfarce de Kal-El e não seu alterego. Como Superman ele se apresenta como é e fazendo o bem ganha a confiança e credibilidade dos outros, mais ou menos como gostaria.

Andreia D'Oliveira (729 Posts)

Enquanto espera a vinda de um gallifreyriano maluco, possuidor de uma caixa azul para viver altas aventuras, Andreia D’Oliveira escreve e edita o Refricultural, lê compulsivamente, assiste filmes e séries homeopaticamente, joga vídeo- game saudavelmente e exercita-se raramente.


2 Responses so far.

  1. Nandinha disse:

    Gostei desse post… talvez o SuperMan seja a representação mais fiel do desejo inerente de QUASE(para motivo de segurança… existe sempre uma excessão! XD)todo mundo: ser aceito.

    Mas, como o próprio Kent sabe, ser aceito leva a algumas consequencias que incomoda – e muito – nós mesmos.